segunda-feira, 2 de julho de 2007

TATUAGEM


Corro para ouvir tua voz mais de perto. Há meia hora, não mais, nossos corpos eram rajadas de vento cintilando na noite incendiada. Agora, na solidão do quarto com paredes mapeadas por pôsteres de ídolos distantes, só escuto uma trilha desafinada que, sei, é tão-somente o meu pensamento. Ele, soberano como um deus mitológico, roubando de mim a tua presença.
Mas os teus olhos ainda estão grudados em mim e as tuas mãos, de um quadrado perfeito, permanecem sorrateiras pelo meu corpo. Pena que o silêncio do depois fira tão gravemente este momento de abstração pós-amor. Reflito, enquanto as horas me engolem, na sensação de estarmos nus, emendados por possibilidades de amores perfeitos. Tua alma ainda cavalga a cama, os lençóis, repousa nos meus seios e nada macula esta sensação. Tudo passa depressa demais. Tudo soa bonito demais. E, neste tempo de tudo e nada, tua imagem vai ganhando contornos reais. Beijo teu umbigo imaginado e a sensatez do meu desejo que emborca no teu dorso despido.
Hoje acordei assim. Pareço um pássaro longe de casa. Minhas asas atropelam o ar e o vôo incerto me faz despencar num mundo de sonho e loucura. Cássia Eller canta com sua voz de trovão, tão bem definida por Rita Lee. O livro de Paul Gauguin permanece na mesa com apenas algumas páginas devassadas. Estou atônita. Tomo tônica, coca-cola, um sal de frutas e como um kiwi experimentando o verde azedo da minha - tua solidão. Gostaria de atravessar a rua, ver tua imagem refletida no espelho. Mas você não está lá. Esteve e se foi. Tudo se vai, esvai... Não há como segurar as coisas. Até o gelo derrete!
Em meio a tantas divagações, caço teu sorriso raro. Teus dentes brancos com gosto de primeiro beijo. Tua pele adivinhada ao toque dos meus dedos. Teu andar de garça, sempre fugindo. Tenho uma pressa enorme. Uma rapidez de gestos capaz de enlouquecer a frágida poesia que teço.
Mas quanto mais me apresso, mais longe ficamos um do outro. Quanto mais te quero, mais te perco. Estranho este amor que evapora, mas que está aqui fervendo como uma água que queima todos os tecidos, nervos e cores pintadas na solidão do meu quarto. Há meia hora, não mais que isso, tu estavas aqui. Tatuagem de ternura que perturba o meu tempo. Dose de saudade que nada nem ninguém apaga.
Há meia hora, talvez um minuto mais, éramos universos doces e eternizados. Agora, somos maçãs perecíveis esquecidas num canto qualquer... E se não te mordo, não estilhaço e te abarco. Se não te roubo, alguém te encontra. Então te masco demoradamente e sinto gosto de vida nesta invenção que se desfaz em dentadas.


Publicado no Caderno Cultural de A TARDE em 28 de novembro de 1998, após ter sido censurado pela minha então editora, que considerou "uma trepada". O escritor Florisvaldo Mattos, editor do outro suplemento, aceitou a publicação sem questionamentos. Acredite, a censura ainda existe! Ou seria a insensibilidade?

Nenhum comentário: