sexta-feira, 4 de novembro de 2011

SOBRE O NADA


Fotomontagem: O rosto da autora em meio a um assoalho de madeira onde sobressai uma flor seca

IZA CALBO

Enerva-me as flores secas da Primavera
E o frio insistente a me roçar o peito enquanto durmo
Nos meus nefastos sonhos em chuva mesclados
Salto como rusga de um passado de essência turva

Não são mais azuis as águas de Amaralina
Nem me enrubesce a face os carinhos roubados a caminho do nada
Troquei as traças pelo cheiro adormecido da naftalina
E, ainda assim, meu sossego se faz esparso

Sinto vontade de saltar do topo onde nunca estive
Mergulhar na escuridão dos rios de cobre da Chapada
E caçoar da minha falta de senso que costumava chamar amor
Escrevo sem linha que se trace
Sem nada que me faça trocar o tropeço pela areia movediça de logo mais

Não tenho mais tempo
Não tenho mais nada
Lembranças são fuxicos feitos ao lado da cigana velha
Enquanto adolesciam os meus sonhos infantis
Mal cuspi a vida e a vida já havia escarrado em mim.
E tem sido assim
Um descomeço
Um medo de ser sem ter sido nada que valha
Uma barba por fazer a me incomodar no meio da noite sem sabor
Feito gelatina estragada em meio a morangos apodrecidos

Estou mofando na geladeira antiga
E nenhum fruto me traz o gosto que imaginava haver em tudo o que tocava e, sem saber, virava veia sem sangue e pele sem viço.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

CREIO


Foto-descrição: Montagem que tem no fundo uma das cenas do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, onde os homenzinhos dançam em torno de uma espiral, sobreposta à imagem da autora deste texto, meio deitada, meio princesa.
Fotomontagem: Iza Calbo

IZA CALBO

Creio na inocência e na maldade
No amor real e no inventado
No que pensamos ser e no que, de fato, somos
Creio nas paisagens
E nas estradas castigadas pela solidão
Nas fadas das histórias que me contaram
E nas bruxas que me assustaram o sono
Creio no sentimento bruto
E no que se possa lapidar
E, até mesmo, na impossibilidade de se encontrar algo além da crueldade
Somos todos imperfeitos
Somos canastras perdidas de um jogo sujo
Sei que não posso manipular as almas de quem amo a meu favor
Sei que o amor que perdi não está no que encontrei
Que todo amor perdido é uma ausência infinita no âmago do desejo
Ainda assim creio no amor que sinto
Nos amores que tive
Nos que tenho
E, se o inimigo estiver por perto, acredito na capacidade dele em me apunhalar
Não por raiva somente, mas por instinto também.
Tenho sonhos terríveis
Sonhos amáveis que tento guardar no travesseiro
Pesadelos nunca apagados por conta das mágoas do passado
E o rosto trazido de volta
Nas noites quase insones nas quais somente a minha companhia se estende na cama
Creio em filhos que amo
Em filhos que não me amam
Em filhos que tive
E nos filhos que terei por escolha
Desacredito de quem se diz arrependido
Quando este arrependimento aparece nas palavras jogadas ao vento
Nas faces das redes de relacionamento
Onde muitos algozes posam de cordeiros de Deus
Creio na Divindade que me conduz
E também nas fontes de energias opostas que me afastam da fé
Sou completamente humana
Admito erros, comemoro acertos nem sempre exatos
E, ante tudo, ainda abro os braços para afagar desafetos
Não acho o mundo impossível
Acho que somos o impossível no mundo
E, se muito tenho de tempo,
Deixo passar à mercê das inúmeras esperas
Um dia, quem sabe,
Talvez nos encontremos num cruzar de olhos ou de ruas
E ai toda a fantasia fantástica das fábricas de chocolate de meu pai
Arrancando doces do meu ouvido de criança perdida
Ganhem o pulso absoluto para que mesmo o vazio da ilusão seja tecido com o linho do Eterno.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

COLECIONADOR DE ALMAS


Foto: Montagem feita pela autora, onde se vê um homem passando na penumbra e duas mulheres esticadas, nuas, num chão lamacento

IZA CALBO

Arrancaste minha alma com os dentes
Cuspindo, na minha frente, os pedaços que eram teus
Não me deste tempo de desatar os nós
Que tu mesmo fizeste feito marinheiro que és
Para que estivéssemos sempre juntos
Ainda que soubesses da tua sina de abandonar os portos
E da tua falta de coragem de ser o último a deixar o navio

Assististe ao naufrágio do meu amor
Como quem assiste a um filme sem necessitar ler as legendas
Tens a capacidade de saber outras línguas
E, por isso, pouco te importaste em prestar atenção na que meu coração te falava

Saíste de cena da mesma forma como apareceste
De repente, sem avisar, se aninhando no colo que nunca, de fato, quiseste ter
Tua atuação, digna de aplausos, foi imitação barata de filmes que vimos abraçados
Nunca imaginei que o fim fosse ter a dor do incompreensível
Como tantas películas que nos deixam ser saber ao certo o que aconteceu

Roubaste meus melhores dias
E, não satisfeito, meus melhores momentos
Na tua trama assassina me puseste num dos montes de corpos
Como fazes por onde passas...
Esticados no curtume das tuas andanças vis

Amanheci hoje com os teus tantos “eu te amo” ecoando nos meus ouvidos surdos de querer
Deveria ter notado que até no tratamento que ofertas a quem dizes amar
Os termos se repetem
Mudam apenas os corpos e os rostos
Para que não precises ter o trabalho de recomeçar

Mas as tuas falhas de continuidade
São irmãs gêmeas do teu caráter torto
Se hoje ainda acordo e lembro-me disso tudo
E para que nunca mais possa ter a vontade de cruzar a mesma rua
Ou passar por cima do chão que pisas

Sei teu endereço, os lugares que freqüentas... As coisas que fazes
Mas recolho-me, ermitã, evitando a todo custo cruzar o teu caminho
Antes, o teu caminho era a lanterna que usava para não me perder
Desconhecia o abismo onde me atirarias
Tão logo estivesses pronto para ter futuro mais promissor
Não que busques algo tão ingênuo quanto o amor
Longe, bem longe disso
Tuas posses são muito mais amadas que as tuas vítimas
Enjauladas pelo teu carinho falso e mordaz

És um algoz
Nisso podes saber-te perfeito
No mais, és uma pessoa sem nada
Além das almas que levas junto com as tuas malas
Colecionando a essência dos que te amam
Para, quem sabe, um dia, ter alguma essência que te valha

sábado, 27 de agosto de 2011

ILUSÃO DE AMOR


Imagem: Mescla um olho de mulher com uma foto sobreposta da autora. Fotomontagem minha.


Senti o que não se sente
Sua barba a roçar minha nuca
Sua boca à procura do nunca

Senti o que não podia
Teu corpo teso em cima do meu
Teu sexo aberto em flor buscando sei lá o quê

Senti o que queria
Mas era sonho
E quando acordei não estavas lá.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

JOGOS CRIMINAIS



Bem, quem não leu, agora pode baixar o livro na íntegra pelo site Recanto das Letras. Este é um protesto pelo fato de o editor ter me feito uma cobrança indevida em cartório, que ele mesmo pagou; não ter me mandado o contrato nem as notas fiscais eletrônicas, que foram prometidas desde janeiro e, depois, em março. Tenho todas as correspondências com o editor Edson Rossatto que já está preparando a número 2, dentre outras obras do gênero. Ou seja, enchendo o cofrinho e o AUTOR que se dane. Assim, o livro inteiro pode ser lido via 0800 (de grátis), pois, segundo Rossatto, não há cláusula que impeça, ainda que os demais autores possam vir a reclamar. De já: reclamem com o EDITOR. Sem mais, Iza Calbo, autora de Asas Estilhaçadas e Sedução e Veneno, ao preço de R$ 800, fora o estresse. Antologia? No more!

Para baixar e ler: http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/3182001

sexta-feira, 13 de maio de 2011

DECRETO DE SOLIDÃO



Fotomontagem: IC. Mostra parte das pernas de uma mulher em preto e branco e duas flores vermelhas entrelaçadas por cima desta imagem.

IZA CALBO

Eu te vejo e nem imagino que há uma distância concreta entre nós
Ainda sinto a chuva no ponto de ônibus
Os beijos roubados num consentir sem limites
A vontade de voar para longe de tudo, ao teu lado

Roubo fotos caço versos que rasguei e guardei no pensamento
Não temos mais tempo, não somos mais nós
O que parecia eterno hoje caçoa de mim num papel amassado
E jogado sem razão na rua que ontem acabamos de limpar

Não trago mais a verve da poesia exposta
A morte me sonda feito naja
E quase rasgo os pulsos sem sentir nada
Está tudo acabado como na voz do poeta
Está tudo estanque e sem vida
Na paleta, onde antes, cores afloravam
Em nossos escassos retratos

Busco sonhos ao dormir
Busco tudo que quis e não pude realizar
Tudo que se fez promessa desfeita
Como prece para o santo errado

Ainda assim todas as coisas estão eivadas de amor sem fim
Todas as coisas estão assim ou quase assim
E a velha canção de Marina
Ainda passeia pela Orla
Por onde passávamos sem pressa
Sentindo o sal em nossas narinas
No cheirar a nuca de logo mais

Estou perdida. Sem caminho
Sem carinho que complete o que ficou no vazio
Sem teus dedos
Sem teu corpo de marcas invisíveis que dizias existir
Marcas feitas quando fizeste a cabeça
E te entregaste as tuas crenças tão azuis

Estou a um palmo de dizer não
A um passo de clamar sim
De dizer: Volta. Simplesmente.
Uma volta, que sei, só se faz no decorrer dos sonhos
Em meio aos mares nos quais posso te ver
Sem ousar tocar teus ombros
Para que me vejas também

Será que sentes a minha alma colada no teu peito
Onde costumava me deitar inteira e sem medo?
Será que te lembras das nossas andanças
Parando de bar em bar sem nada buscar?
Será que te lembras de lembrar-se de nós?
Não. Creio que não.

Definitiva e duramente,
A solidão é a única dama
A dançar lado a lado com a minha dor
E se não me consola
Ao menos me faz sentir que, em essência,
Continuamos a existir naquele ponto de ônibus
Molhados pela chuva e pelo prazer quase proibido,
Mas que sempre teve a leveza da luz
Que deixaste como trilha ao partir daqui.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

DECLARAÇÃO DE SAUDADE


Fotomontagem: IC. Mostra um casal deitado, nu, e a palavra saudade escrita na areia

IZA CALBO


Caminho pelas ruas com tua presença incrustada na pele
É como se nunca tiveste ido embora
O arrastar das sandálias
O barulho da chave invadindo a porta
E aquele gosto de saudade
Mesmo quando o teu beijo era exato
Não consigo me desfazer da sua alma
Nem me libertar do teu cheiro
Ou da tua carne
Os cabelos finos que acaricio no vazio
Fazem dos meus dedos meros fantasmas iludidos
Isso me causa cansaço feroz
E, extenuada, me entrego ao sono forçado pelas pílulas
Mas não encontro alivio
Os meus sonhos te trazem para mais perto
Como se isso fosse possível

Caminho pelas ruas com o teu sorriso ecoando na mente
Não te vejo, não te vi mais, mas o amor parece moldado em sal
E fere as feridas que trago quase estancando o sangue das veias
Sinto tuas mãos enlaçadas nas minhas
Nossas pernas embaraçadas na cama
Nosso amor feito e refeito sem nunca querer parar
Tua companhia incorpórea transtorna a mente embotada de sol
É como se estivesses me esperando no bar da esquina
Como se fôssemos conversar por mais de 20 horas
Desafiando o tempo a passar

Caminho pelas ruas sozinha
Mas a minha solidão bate de ombros com tua imagem fugidia
Um nó engasga a garganta e as lágrimas deslizam suaves
Quase sem razão de ser
Se forem perceptíveis, pouco importa
O dia, sem você, é escuro
Há nuvens pesadas encobrindo lembranças
Mas uma fresta de sol me faz ver tua face
O teu sorriso está ali,
Calado ao pé do meu ouvindo
Prestes a gritar a alegria inexistente
Deixaste teu canto solo num canto do meu coração
E a tua música, com seus rifes, rompe o silêncio em mim

Caminho por todos os lugares,
Todos os dias
E, até mesmo em casa, tua voz murmura palavras que guardei
À margem da mágoa que provocaste
Temo te ver de fato
E me refugio para evitar que, ao acaso, o teu passo encontre o meu
Não teria palavras
Minha voz... Esquecestes de devolver
Também não te lembraste de levar teu coração para longe do meu
E se hoje nossos corações separados
Em mim batem juntos numa melodia insensata
É porque o amor negado
Não teve tempo ainda para ser esquecido
O amor descartado pela tua vontade
Continua em mim, fazendo-me refém desde sentir em vão
Queria tocar teus ombros largos
Cair sobre o teu corpo num mergulho de desejo e mar
Mar de Amaralina
Mar do Rio Vermelho
Mar da Bahia
Onde juraste me amar até o infinito,
Esquecendo de avisar que o infinito acaba...

Caminho, agora, por dentro de mim
E, nesta gruta ainda casta,
Encontro-te nas águas azuis e intocadas
Nestas águas me banho imaginando ser cada gota
Uma gota do teu suor
As gotas de suor que batizaste de pérolas
Não há nada que me afaste da sua presença
Nem mesmo a tua ausência de tantos anos
Porque nunca estiveste ausente em mim

Cravaste uma lança no meu peito
E não há quem possa retirá-la.

Isso somente tu poderias fazer sem me matar aos poucos
Como acontece agora quando mesmo
Sabendo-te longe, ainda que tão perto
Sinto tua alma escamada na pele do meu silêncio.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

NOITE DE AUTÓGRAFOS NA CANTINA DA LUA



A jornalista Iza Calbo, uma das participantes da coletânea Jogos Criminais (Editora Andross), lançada em São Paulo no mês passado, autografa a obra na próxima sexta-feira, dia 25/02, a partir das 19 horas, na Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus. O evento tem entrada franca, regado a música ao vivo. Os livros serão vendidos no local a R$ 25,00. Autora de Capítulos, viabilizado pelo então Prêmio Copene de Cultura & Arte, em 1998, Iza Calbo retoma a carreira literária com dois contos policiais: Sedução e Veneno e Asas Estilhaçadas. Aposentada desde 2002, a escritora atuou nos jornais Tribuna da Bahia e A TARDE, dedicando-se a esta atividade por mais de 15 anos. Afastou-se por problemas de saúde, mas continuou escrevendo em seu blog e sites, voltando sua produção para contos, poesias e haicais.
A coletânea Jogos Criminais foi organizada pelo jornalista e escritor Sérgio Pereira Couto. A editora paulista, tocada por Edson Rossatto, dedica-se a coletâneas, oportunizando a apresentação de autores ainda pouco conhecidos do público. Ao todo, a coletânea reúne 30 autores, sendo quatro destes com dois contos cada, totalizando 34 textos. A tiragem inicial é de 1.500 exemplares, podendo chegar a 5 mil a depender da demanda. A programação do evento será marcada pela sessão de autógrafos com a autora, única representante da Bahia. No lançamento na capital paulista,a atriz Cristiana Gimenes fez a leitura de cinco contos do livro, dentre os quais Asas Estilhaçadas
A Andross Editora começou no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, em 2004 para abrir espaço no mercado editorial aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, mas cresceu e se mantém no mercado graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias. Do catálogo, constam mais de 40 publicações. Edson Rossato, editor responsável, é formado em Letras, escritor, palestrante e roteirista de HQ.
Sérgio Pereira Couto, organizador da coletânea, é jornalista, escritor, especialista em esoterismo, história antiga e medieval. Foi editor e repórter de revistas de como Ciência Criminal e Discovery Magazine, PC Brasil e GeeK! Possui textos e artigos publicados em diversas revistas, dentre estas Galileu e Planeta. É autor de mais de 20 livros, com mais de 100 mil exemplares vendidos somente no Brasil, entre eles os best-sellers Sociedades Secretas, Investigação Criminal e Renascimento.
Iza Calbo nasceu em São Paulo, mas radicou-se em Salvador desde 1972. Formou-se Bacharel em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1988. Trabalhou mais de 10 anos na Tribuna da Bahia, ocupando os cargos de repórter, redatora e Chefe de Reportagem, além de fazer críticas de produções musicais e culturais em geral. Em A TARDE publicou textos em várias editorias, mas sempre se ateve ao Jornalismo Cultural, tendo sido integrante da equipe do Caderno 2, até 2002. Tem dois livros prontos, Farrapos de Saudade, onde retoma à prosa poética de sua estréia com Capítulos e Oito Pecados Captados, reunindo poesias acerca do tema sugerido, no qual o Amor entra na lista dos Pecados Capitais. Ambos sem editora.


ROTEIRO

O QUÊ: Noite de autógrafos da antologia Jogos Criminais (Editora Andross)
QUEM: Iza Calbo (autora de 2 contos)
QUANDO: Dia 25/02/2011, sexta-feira
HORA: A partir das 19 horas
ONDE: Cantina da Lua, Terreiro de Jesus, Centro Histórico
ENTRADA: Franca
PREÇO DO LIVRO: R$ 25,00
I

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

REFLEXO DA MOÇA DESESPERADA


IZA CALBO

- Você é louca – diz a moça desesperada.
- As pessoas estão rindo de você – insiste, enquanto coça a cabeça infestada por piolhos.
Naquele sanatório, a paciente de prenome Márcia, chamada docemente pelos funcionários de “moça desesperada”, vai tecendo a realidade paralela e lançando mísseis imaginários em todas as direções.
No fundo, ela não sabe ao certo onde está o alvo. Perdeu a noção quando se viu sozinha,
na casa mofada, abandonada pelo homem que julgava ser seu para sempre.
A moça desesperada acredita mesmo nos extremos.
Tudo para ela gira em torno do SEMPRE e do NUNCA.
Nos devaneios nos quais se perdeu, esqueceu a existência do TALVEZ
Descartou que o SEMPRE acaba e que o NUNCA pode ser a afirmação de muito querer o que ela – a moça desesperada - se propõe a desdenhar.
As altas doses medicamentosas parecem sem efeito.
Não raro, a moça desesperada surta e passa a atacar a mulher louca.
Na imaginação estacionada no pátio de sua mente estática,
foi a mulher louca quem tomou dela o HOMEM que julgava ser uma propriedade.
Nos corredores, pessoas com problemas bem maiores, tentam abrandar a fúria que assola o coração da moça.
E ela ri todo o tempo.
Acredita que é a melhor e credita a volta do seu HOMEM para a mulher louca pelo poder que, supostamente, esta tem para sustentar o HOMEM, que julgava ser seu.
Desconhece a história dos dois.
Entrou no meio e, sem saber, embaraçou-se nas teias da ilusão do eterno.
A moça desesperada vive entre altos e baixos.
Murmura pelos cantos
Inventa pessoas que não existem, xinga desesperadamente a mulher louca.
Ela tem, assim, uma arquiinimiga.
E a mulher louca, como ela diz, continua a viver sem se preocupar com a posse do HOMEM que a moça desesperada,
mesmo negando veementemente, reclama para si.
A mulher louca cuida da vida, do corpo, da alma.
Não se importa se riem dela ou se falam dela.
Ela não tem mais a pressa que aprisiona a moça desesperada.
Aliás, nunca teve.
Já viveu muitas histórias. Amou como pode e soube.
Agora, ama sem nada esperar.
A mulher louca não coça a cabeça nem alimenta piolhos com seu sangue
Não xinga, não morre de medo de ser deixada pelo HOMEM que a moça desesperada pleiteia como a um troféu.
Na verdade, a mulher louca já tem os troféus mais importantes: serenidade e paz de espírito.
E assim, neste cenário, a mulher louca ouve as ofensas da moça desesperada e não acha graça.
Simplesmente sente pena.
E pena, sabe a mulher louca, é o último sentimento que se deve sentir por si mesmo ou por outrem.
Mas, sem ter outra forma de ver tal desespero, pena é o que sobra da mulher louca para a moça desesperada.
Talvez a mulher louca se apiede da situação e, então, passe a sublimar o desespero da moça, que também já é mulher, embora não saiba ou se recuse a aceitar.
O HOMEM da moça desesperada assiste a tudo num misto de graça e medo.
Ele teme que a moça desesperada se interponha entre ele e a mulher louca que,
cansada de tudo isso, prefira seguir sozinha, deixando para a moça desesperada a sensação de pertence que a motiva.
Sensação irreal na qual a moça desesperada se apega como o fazem os insanos a uma cruz pesada e sem dono.
A mulher louca já deletou a voz e a existência da moça desesperada várias vezes
Mas o desespero da moça parece um grito abafado no silêncio aquietante do amor que o HOMEM lhe dispensa cotidianamente e que ela – a mulher louca – retribui naturalmente.
Porque a mulher louca sabe que o amor não amarra
Muito menos se cola num diário amarelado de queixas.
A mulher louca distingue amor e paixão
E, mais que nunca, valoriza a companhia e o carinho sem amarras.
Já a moça desesperada segue desfigurando a face da própria juventude
Enrugando os dias com tolices e desatinos.
E quanto mais ela assim o faz, mais a mulher louca brilha em sua simplicidade.
Porque a loucura, além de patológica, pode ser um sinônimo de felicidade e, quiçá, genialidade.
Louca, a mulher toma um banho com ervas e se deita ao lado do HOMEM
O mesmo que, por um breve espaço de tempo, esteve com a moça desesperada.
No peito macio, todas as noites, ela escuta o coração do anjo que escolheu para acompanhá-la, dando-lhe abrigo e a chave da porta para quando for necessário partir.
A moça desesperada escreve com letras garrafais imaginárias no teto da enfermaria:
-SUA LOUCA.
E, sem se dar conta, o espelho a reflete


Imagem: WEB. Mostra uma moça deitada e a própria imagem como um reflexo. Está seminua, com a face coberta pelos cabelos e o corpo envolto num lençól branco. Foto P & B

OBS: A partir de agora as imagens serão descritas para facilitar o acesso dos deficientes visuais. Aos poucos, este blog será totalmente acessível.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

JOGOS CRIMINAIS - RELEASE DIVULGAÇÃO




A jornalista Iza Calbo participa da coletânea Jogos Criminais (Editora Andross), com lançamento neste sábado, dia 15, na Biblioteca Viriato Corrêa, à Rua Sena Madureira, 298, Vila Mariana, capital paulista. Autora do livro Capítulos, viabilizado pelo então Prêmio Copene de Cultura & Arte, em 1998, Iza Calbo retoma a carreira literária com dois contos policiais: Sedução e Veneno e Asas Estilhaçadas. Aposentada desde 2002, a escritora atuou nos jornais Tribuna da Bahia e A TARDE, dedicando-se a esta atividade por mais de 15 anos. Afastou-se por problemas de saúde, mas continuou escrevendo em seu blog e sites, voltando sua produção para contos, poesias e haikais.
A coletânea Jogos Criminais é organizada pelo jornalista e escritor Sérgio Pereira Couto. A editora paulista, tocada por Edson Rossatto, dedica-se a coletâneas, oportunizando a apresentação de autores ainda pouco conhecidos do público. Ao todo, a coletânea reúne 30 autores, sendo quatro destes com dois contos cada, totalizando 34 textos. A tiragem inicial é de 1.500 exemplares, podendo chegar a 5 mil a depender da demanda. Na data do lançamento, o livro será comercializado a R$ 19,00, mas depois poderá ser adquirido nas livrarias de todo o País por R$ 29,00.
A programação do evento, com entrada franca, será marcada pela Confraternização entre os autores, às 14 horas; seguida de entrevista com o organizador sobre o tema Perfil Criminal: A composição da mente por trás da ação, às 15 horas. Em seguida, a atriz Cristiana Gimenes fará a leitura de cinco contos do livro: O homem do rosto redondo, de Humberto Raposa; Joana e Maria, de Debby Lenon; Condenado pela Consciência, de Amauri Corrêa; O homicídio do Senhor X, de Ataíde Menezes; e Asas Estilhaçadas, de Iza Calbo. Às 17 horas, haverá o coquetel de lançamento com sessão de autógrafos feita pelos autores presentes. O livro tem o apoio da Fundação Biblioteca Nacional. A Secretaria de Cultura de São Paulo está entre os realizadores do projeto.
Em agosto de 2004, a Andross Editora nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço no mercado editorial aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, mas cresceu e se mantém no mercado graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias. Do catálogo, constam mais de 40 publicações. Edson Rossato, editor responsável, é formado em Letras, escritor, palestrante e roteirista de HQ. Publicou os livros Mansão Klaus e outras histórias e
Curta-metragem, além da HQ História do Brasil em Quadrinhos.
Sérgio Pereira Couto, organizador da coletânea em questão, é jornalista, escritor e especialista em esoterismo, história antiga e medieval. Foi editor e repórter de revistas de como Ciência Criminal e Discovery Magazine, PC Brasil e GeeK! Possui textos e artigos publicados em diversas revistas, dentre estas Galileu e Planeta. É autor de mais de 20 livros, com mais de 100 mil exemplares vendidos somente no Brasil, entre eles os best-sellers Sociedades Secretas, Investigação Criminal e Renascimento.
Iza Calbo nasceu em São Paulo, mas está em Salvador desde 1972. Formou-se Bacharel em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1988. Trabalhou mais de 10 anos na Tribuna da Bahia, ocupando os cargos de repórter, redatora e Chefe de Reportagem, além de fazer críticas de produções musicais e culturais em geral. Em A TARDE publicou textos em várias editorias, mas sempre se ateve ao Jornalismo Cultural, tendo sido integrante da equipe do Caderno 2, até 2002. Tem dois livros prontos, Farrapos de Saudade, onde retoma à prosa poética de sua estréia com Capítulos e Oito Pecados Captados, reunindo poesias acerca do tema sugerido, no qual o Amor entra na lista dos Pecados Capitais. Ambos sem editora.

sábado, 1 de janeiro de 2011

VINTE ONZE

IZA CALBO

Bem, vejo o ano de 2010 partindo e comemoro não ter estado doente; ter tido como comprar o pão nosso de cada dia, ainda que substituindo-o às vezes por bolachas amolecidas. Por ter tido momentos de paz e de pesadelo também, o que me torna absolutamente humana. Por ter conhecido pessoas novas, que me fizeram ver coisas que não via; por ter feito uma limpa das velhas que só me seguiam como a um fardo. Enfim, por ter conseguido chegar ao Vinte Onze, como brinca uma amiga, sem muitas firulas. E o tempo continua. Este ano novo, na verdade é uma invenção que marcamos, a fim de nos livrarmos um pouco da monotonia. Mudar de ano, de roupa, é um renovar de sonhos e esperanças. Uma forma de acreditar-se vivo, apesar dos pesares. Beijos nos mortos e nos ainda insistentes seres viventes. Estamos todos juntos na formatagem que a saudade dá às nossas lembranças. Amém!