terça-feira, 3 de agosto de 2010

INDAGAÇÕES A UM ANJO




IZA CALBO

Lembras da doçura do meu colo?
Das vezes em que jurou jamais me deixar só?
Por acaso sentes o peito apertado pelas tuas promessas vãs?
Em algum instante, no teu dia, voltas o olhar para o passado
e pesas o quanto te fui inteira e leal?
Pensas em nós?
Nas caminhadas pela praia deserta, nas pipas feitas aos montes?
Não guardou na memória o cheiro de alfazema antes do amor?
E as tuas ausências e as tuas voltas?
Lembras de quantas vezes me pediste perdão e juraste se aquietar?
Não. Claro que não.
Eu sou a que todos esquecem.
A que não teve pai, mãe, filhos...
A que não tem amigos por perto.
A que só se vê de longe.
Sou diferente de tudo.
Não procuro piedade quando minha dor me tira o ar.
Não desperto amor, mesmo me doando integralmente.
Sou a que todos desprezam. Sou o próprio esquecimento.
Mas eu... Eu, não esqueço nada.
Isso, sim, se revela em poções de tormento que bebo e me envenenam.
Talvez este não tirar da memória
seja o alimento sólido e insólito da minha loucura tão lúcida.
Este meu não esquecer de nada nem de ninguém, talvez seja, provavelmente,
o que me mantém aqui, mesmo que eu não mais o queira
e muito menos saiba o motivo de estar.
Lembras dos teus olhos pedintes na chuva
e das horas embebidas de amor no sofá da sala?
Da casa que pintamos?
Dos filhos que pensávamos ter?
Da nossa saudade causada por meia hora de distância?
Não. Claro que não.
Nunca foste aquela pessoa.
Nunca serás o anjo que tomei nos braços
e deixei partir sem ter o direito de pedir:
- Não, por favor, não vá!
Se fosses quem dizias que eras,
não terias me deixado em troca de qualquer coisa.
Terias voltado o olhar para o nosso céu e, deitado ao meu lado,
diria o que tantas vezes disseste:
- Perdão amor, eu não sei por que fiz isso.
Embora tu sempre soubesses.

IMAGEM: Arquivo pessoal e Net

Um comentário:

Leila Machado disse...

Penetrante, suas palavras me exorcizam a alma e tira de mim o que ela cala não sei por que!
LINDISSIMO Iza.